Mulheres e cerveja, uma dupla com milênios de história

1857

Por Rodolfo Bosqueiro
@umami.sommelieria

Mulheres e cerveja

A cena cervejeira hoje está muito ligada aos homens barbudos, que vemos aos montes dentro das cervejarias e em festivais de cerveja. Mas nem sempre a história foi assim. Se não fosse pelas mulheres, talvez nosso líquido sagrado não seria o que é hoje.

A cerveja está sendo produzida por pelo menos 10 mil anos, e historicamente, na maioria das vezes, este campo foi dominado pelas mulheres. Na antiga Suméria, tudo que girava em torno do lar, como a limpeza e a preparação de alimentos e bebidas era papel da mulher.

Os homens estavam caçando e recolhendo madeira, enquanto a cerveja era feita por elas, em casa, e toda a família bebia – incluindo as crianças.

Além do alimento

Além de servirem como fonte de alimento, as cervejas fabricadas pelas mulheres da Suméria eram usadas para cerimônias religiosas. E essas cervejeiras desfrutavam de grande respeito, em parte também por serem vistas como sacerdotisas da reverenciada deusa da cerveja, Ninkasi.

Essa reverência pôde ser notada no Hymn to Ninkasi (Hino à Ninkasi), uma espécie de receita de cerveja em forma de música, escrita em uma tábua cuneiforme, por volta de 1800 a.C., que é a mais antiga receita da bebida escrita da história.

Como os seus predecessores, os babilônios mantiveram uma alta estima pelas mulheres, e alguns historiadores dizem que elas podem ter participado de um dos mais antigos negócios do mundo ao vender suas cervejas.

Um pouco mais de história 

Primeiro conjunto de leis escrito que se tem conhecimento – indicava que as mulheres eram donas das tavernas e vendiam as cervejas produzidas por elas mesmas.

mulheres e cerveja
Código de Hamurabi: conjunto de leis escritas por volta de 1772 a.C.

Os hieróglifos dessa época descrevem as mulheres fazendo cerveja e bebendo-as através de uma espécie de canudo. Essas cervejeiras desenvolveram esses objetos para atravessar a camada de “espuma” formada na fermentação que flutuava no topo da cerveja nas tinas de barro.

Em um primeiro momento, a fabricação de cervejas também era papel das mulheres nas casas egípcias. Mas os registros sugerem que, com o aumento das “fábricas de cerveja” no Egito, os homens as substituíram e essas foram deslocadas para papéis secundários.

Mais à frente na linha do tempo, uma lenda finlandesa conta que uma mulher chamada Kalevatar trouxe cerveja para a terra misturando mel com saliva de urso. E que os verdadeiros Vikings permitiam que apenas as mulheres produzissem a cerveja que alimentava suas conquistas.

Os primeiros europeus do norte adoravam suas deusas de cerveja como o antigo Oriente Médio o fez, e antes do segundo milênio d.C., a maioria das mulheres europeias bebiam cerveja.

Das mulheres germânicas que fabricavam cervejarias nas florestas para evitar os invasores romanos até as “alewives” inglesas que mantiveram suas tradições até a Revolução Industrial, as mulheres europeias alimentavam seus maridos e crianças com cervejas de baixo teor alcoólico e ricas em nutrientes, que eram mais potáveis do que a água.

Algumas cervejeiras empreendedoras produziam mais do que suas famílias precisavam e vendiam o excedente por uma miséria. Mas as mulheres casadas não possuíam status legal, e as mulheres solteiras possuíam pouco capital.

Essas dificuldades as deixou financeiramente e politicamente vulneráveis ​​e incapazes de acessar os desenvolvimentos econômicos e os avanços tecnológicos que gradualmente transformaram a Europa de uma sociedade agrária para uma comercial.

Os conventos alemães proporcionavam um abrigo raro para as mulheres solteiras florescerem como cervejeiras e botanistas. Neste contexto, St. Hildegard de Bingen se destacou e se tornou a primeira pessoa a recomendar publicamente o lúpulo como agente de cura, amargor e preservação; cerca de 500 anos antes da sociedade convencional ter tomado ciência.

Fora dos muros monásticos, os direitos das cervejeiras ficavam à mercê dos senhores feudais, da Igreja ou da classe mercante emergente – o qual, ou os quais, estivessem no domínio no local e no momento.

Durante a Peste Negra, com a morte de milhões de pessoas, houve uma falta de mão-de-obra e trabalhadores saudáveis ​​estavam em tal demanda que poderiam nomear seu preço. Com mais dinheiro, uma porcentagem significativa foi gasta em cerveja e mais tavernas se abriram.

Durante a Guerra dos Cem Anos entre Inglaterra e França (1337 a 1453), os soldados recebiam diariamente oito pints de cerveja. Essa demanda significava que um fornecimento seguro e confiável era necessário. As cervejeiras de casa não conseguiam fornecer cerveja suficiente. Era hora de produzir cerveja em larga escala (fábricas).

As mulheres não costumavam trabalhar fora da casa, e não lhes era permitido possuir sua própria propriedade. Elas também não podiam aceitar empréstimos bancários. Tudo isso significava que as mulheres não podiam possuir cervejarias.

As leis e a cerveja

As leis de pureza, como a Reinheitsgebot, regularizaram a fabricação de cervejas na Europa, mas também colocaram recursos de alto custo, como o lúpulo, fora do alcance das cervejeiras.

Os homens construíram cervejarias de larga produção e formaram redes de comércio internacional. Assim, a Lei e o Comércio manteve as mulheres fora de ambos.

À medida que a Idade das Trevas abriu caminho ao Renascimento e à Era da Exploração, as cervejeiras não estavam apenas perdendo sua relevância. Nessa época, em que até 200 mil mulheres foram processadas como bruxas, elas estavam perdendo a dignidade e também a vida.

Embora não se possa provar uma conexão, alguns historiadores veem semelhanças claras entre as cervejeiras da época e as ilustrações selecionadas para as propagandas anti-bruxas. Imagens de caldeiras espumando, vassouras (que eram penduradas fora da porta para indicar a disponibilidade de cerveja), gatos (para perseguir e afastar ratos das produções) e chapéus pontudos (para serem vistos acima da multidão no mercado) permanecem até hoje.

Devido a todos esses empecilhos, por volta de 1700, as mulheres europeias já tinham quase que interrompido totalmente a fabricação de suas cervejas.

Já nos séculos XIX e XX, a figura da mulher associada à cerveja foi se direcionando para um caminho totalmente diferente do início dos tempos, quando elas eram sinônimo de expertise no assunto.

UNITED STATES – JANUARY 01: End Of Prohibition : Woman On Beer Barrels In 1933 (Photo by Keystone-France/Gamma-Keystone via Getty Images)

E hoje em dia?

Algumas pressões sociais vem ajudando a mudar esse quadro positivamente nos últimos anos, principalmente com a diminuição da objetificação da imagem feminina em propagandas de cervejas. Além disso, cada vez mais, as mulheres atuais se interessam pelo mundo que lhes foi tomado, e mostram para os barbudos que as cervejarias e o mercado de cervejas também é espaço delas.

A diferença entre homens e mulheres atuando no segmento ainda é grande. Mas já temos exemplos de muitas mulheres que se destacam neste mercado e fazem um trabalho excepcional.

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